Esporte

Bets e paralisação do Brasileirão: clubes cancelam reunião e miram STF

Dirigentes discutem parar o campeonato, cobram a CBF e buscam ingressar no STF. Encontro com o governo foi desfeito após baixa adesão dos presidentes de clubes

Por Redação

29/09/26 – A reunião que o governo federal havia marcado para esta terça-feira (29) com dirigentes do futebol brasileiro foi cancelada. O motivo foi a baixa adesão dos clubes, que reagem à medida provisória que proíbe as casas de apostas no país. Os cartolas também discutiram, em ligações e mensagens, a possibilidade de paralisar o Campeonato Brasileiro. A movimentação se intensificou na noite de segunda-feira (28).

O que está em jogo é a principal fonte de patrocínio do futebol nacional. Dos 20 times da Série A, 14 têm contratos de patrocínio master com bets, e o setor deve movimentar cerca de R$ 1,1 bilhão no futebol brasileiro em 2026. Os clubes dizem que dependem desse dinheiro para honrar compromissos. Levantamento da consultoria Convocados aponta que, em 2025, o patrocínio das bets aos times da Série A somou cerca de R$ 1,03 bilhão, alta de aproximadamente 66% sobre os R$ 618 milhões do ano anterior.

Como o encontro foi desfeito

A reunião foi convocada pelo governo e intermediada pela CBF, a pedido do Planalto. Foi cancelada pelo risco de boicote, e a ausência dos clubes seria a primeira sinalização de pressão. O boicote teve apoio até de clubes mais próximos do governo, como o Corinthians, que encabeça a negociação de uma linha de crédito a juros baixos e conversa com a Caixa para quitar o financiamento do estádio em Itaquera.

O cancelamento não encerrou o plano de ajuda com o novo modelo de empréstimo. Os clubes, porém, querem tempo para encerrar os contratos com as bets. Muitos ainda têm valores a receber em 2026 e argumentam que o orçamento de 2027 também será afetado, pois a previsão incluía essa receita.

Bets e paralisação do Brasileirão: clubes cancelam reunião e miram STF

Ameaça de parar o campeonato e papel da CBF

A ideia de não entrar em campo tem dois alvos. O primeiro é fazer o governo avançar além da linha de crédito. O segundo é atrair a CBF, até agora distante do assunto, para o debate. O pedido mínimo dos clubes é um prazo de transição de seis meses a um ano para o fim da publicidade das apostas.

A última paralisação do Brasileirão ocorreu entre março e agosto de 2020, no auge da pandemia de Covid-19. A CBF, procurada, informou que não se manifestaria. A entidade tem contrato com a Betano, que detém os naming rights do Brasileirão e da Copa do Brasil. O governo acionou a confederação para conversar com times das Séries A, B, C e D.

Frente judicial no Supremo

O Sinafut, sindicato que representa clubes e federações, pediu para participar do processo no Supremo Tribunal Federal aberto pelas empresas de apostas. O recurso foi movido pela Associação Nacional de Jogos e Loterias e pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, com relatoria do ministro Luiz Fux. Os clubes se organizam para pedir ingresso na ação e cogitaram uma ação individual, mas consideram mais efetivo agir em bloco.

O Sinafut pleiteia transição de seis meses. No processo, argumenta que o bloqueio dos sites, marcado para 5 de outubro de 2026, cai na reta final das competições nacionais e das decisões estaduais, período de máxima exposição de marca. A diretoria do sindicato inclui dois vice-presidentes da CBF, Ednailson Leite Rozenha e Ricardo Glock.

Na segunda-feira, ao sancionar um projeto sobre o futebol feminino, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o fim das bets “não traz nenhum prejuízo para o futebol”. Ele disse ainda que os melhores momentos da história do esporte no país ocorreram sem o dinheiro das apostas.

Fotos: Lucas Figueiredo/CBF