Palavras | Espírito natalino, vem sobre nós!

Chegamos à época mais contraditória do ano. Época em que os contrastes se acirram, a desigualdade idem, e a hipocrisia se acentua. Celebramos em todo o mundo cristão o nascimento do Salvador, mas as ruas fervilham de gente comprando e gente assaltando, de abastança e carência despontando como espinhas no auge de suas fases.

Observo as ruas de Icaraí. A classe média anda cheia de sacolas, enquanto os moradores de rua incomodam não somente por pedirem como por suas próprias figuras sujas e andrajosas. Não deveria ser assim no Natal, não deveria ser assim nunca, muito menos no Natal. E que droga, não podemos fugir daqui pra Mônaco e não ver a pobreza nos agredindo com toda a feiúra de sua face.
“Esquece”, tem que dizer o coração. Tem que endurecer o coração, afinal é Natal. “Tem que manter isso, viu?” Mas como assim, Natal não é amor, paz, confraternização? Nem sempre. Para muitos, Natal é presente, comilança, porres e brigas, sim, muitas brigas de família.

Minha terapeuta me disse que esta é a época de mais trabalho para os psicólogos. Os divãs se enchem de pessoas insatisfeitas porque vão ter que passar a noite de Natal, justamente a noite de Natal, com aquele parente que não suportam e que nunca vêem. E ainda terão de trocar presentes com ele, no mínimo o amigo (amigo?) oculto. Outros terão de viajar ou receber em suas casas pessoas que absolutamente não fazem a menor questão de ver, muito menos de passar a noite. É um festival de mágoas e ressentimentos que afloram, às vezes em uma intensidade insuportável, exatamente no tempo de refletir sobre o que foi feito, o que se deixou pra trás e o que se promete para o ano vindouro.

Jesus não merece tantas idiossincrasias, não no Seu aniversário. A festa deve ser dEle, em homenagem a Ele, em louvor a Ele. Por Ele é que se deve ajudar os que estão nas ruas a terem também uma ceia. Por Ele devemos fazer mais caridade do que nos achacarmos na lama da glutonaria. Por Ele devemos perdoar e restaurar relações, curando nossas próprias emoções em Seu nome.
Que a mensagem do Natal impacte muito mais os nossos corações do que as ofertas de um novo celular. Se não por aquele cunhado insuportável ou por aquela criança birrenta, pelo menos por quem deu o Seu filho unigênito para morrer por nós numa cruz e nos reconciliar com o Pai. Um Feliz Natal a todos!

Cristina Lebre é autora dos livros Olhos de Lince e Marca d’Água – à venda na Livraria Schöfer, em Icaraí, ou diretamente por lebre.cristina@gmail.com

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