Palavras | Deixem a TV lá em Benfica

Senhor Diretor da Cadeia Pública José Frederico Marques,

Foi muito boa a iniciativa da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária de doar o equipamento de TV e Home Theater que seria destinada à cadeia supracitada para um orfanato em Nova Iguaçu. As crianças merecem esta e muitas outras doações. Porém, caso haja uma nova doação para essa casa de custódia, esta que vos escreve teria outra ideia de uso para a aparelhagem. Os presos poderiam utilizá-la, contanto que a programação fosse toda determinada pelo senhor, juntamente com a SEAP. E aqui vão algumas sugestões que, penso eu, poderiam ser de grande valia para o desenvolvimento da consciência e do saber dos detentos.

De manhã seriam exibidas matérias dos telejornais locais dedicadas aos cidadãos do Rio de Janeiro que madrugam nas filas dos hospitais públicos para pegar senha de atendimento no SUS. Idosos, doentes de câncer, mulheres grávidas e mães com crianças pequenas seriam o foco das atenções, com a descrição completa de como eles chegaram ali, a hora da madrugada que acordaram, saíram de casa, os transportes que pegaram, etc. Outra matéria importante para a atenção dos custodiados seria a rotina dos hospitais, com depoimentos de médicos e enfermeiros sobre as surreais condições de atendimento.

À tarde eles assistiriam reportagens sobre estudantes de escolas públicas que vivem fechadas por conta de operações policiais em comunidades e os consequentes tiroteios entre polícia e traficantes. Famílias que perderam seus filhos por balas perdidas também seriam ótimos temas a serem focalizados para a atenção dos criminosos de Benfica, quais sejam, os envolvidos na operação Lavajato.

À noite, para não baixar a adrenalina, documentários sobre os PMs mortos no Rio de Janeiro, milícias que dominam e oprimem diversas comunidades e um retrato das ruas do Grande Rio tomadas por drogados e famintos moradores de rua, desempregados, sem teto, sem trabalho, sem escola.

Para variar um pouco, amplas coberturas sobre a rotina dos servidores públicos sem salários indo buscar cestas básicas no MUSPE, discorrendo sobre suas dívidas e como estão sobrevivendo, além de entrevistas com parentes dos que, efetivamente, já morreram em consequência do descaso do estado com seus funcionários.

Tudo isso no conforto da biblioteca da cadeia pública José Frederico Marques, reformada para receber os réus da Operação Lavajato no Rio de Janeiro, com a potência e o visual de 65 polegadas, em alto e bom som estéreo.

Como o equipamento já foi doado fica por ora suspensa a singela sugestão desta jornalista e cidadã para o entretenimento dos detentos de Benfica. Porém, tenho certeza de que falo em nome de toda a população honesta e trabalhadora deste estado. Os presos dessa casa de custódia precisam ter mais intimidade com a realidade que fizeram de tudo para construir. Desde já agradeço a atenção e, se puder, transmita a eles o nosso desejo de uma feliz estadia na prisão, até que cumpram suas penas, confessem seus crimes, se arrependam e peçam perdão aos milhões de fluminenses destroçados pelos líderes dos últimos governos. Fica a dica.

Cristina Lebre é autora dos livros Olhos de Lince e Marca d’Água – à venda na Livraria Schöfer, em Icaraí, ou diretamente por lebre.cristina@gmail.com

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