Bela, devastada, ela ainda é o nosso lar!

Início dos anos 80. Estudante de Jornalismo da UFF, a carioca se apaixonou pela faculdade, pela cidade e por um professor. Resultado: casou-se e mudou pra Niterói de vez.

Minha história tem mais de 30 anos e retrata um caso de amor com tudo desse município. A universidade, a paixão, a família, os amigos. Crescida na Tijuca, traumatizada com a construção do metrô na Praça Saens Pena, encantei-me com Itaipu, Piratininga e as Charitas, onde Babau, professor de fotografia do IACS, e que veio a ser meu marido, morava. Naquela época a praia de Charitas só tinha asfalto até o Casarão, onde hoje funciona a Igreja da Lagoinha. Dali pra frente era chão. Os postes de luz ainda eram aqueles antigos. Não havia essa violência de hoje.
Babau me apresentou à praia mais maravilhosa da vida naquela época, Itaipu, onde ficávamos até as oito da noite, papeando com os amigos e assistindo o belíssimo pôr do sol regado a muita cerveja e peixe. Éramos verdadeiros pintos no lixo!

Como estudante da UFF frequentei todos os bares do Ingá. Os professores davam aulas no “Barbudos”, e o IACS fervia em suas famosas festas juninas. A Lara Vilela não era um mar de rosas pra se andar sozinho, mas não chegava nem perto da atual “rua do perdeu”.

Como a faculdade de Comunicação era à noite, viramos zumbis naqueles anos. De bar em bar amanhecíamos no Steak House, comendo coraçãozinho ao vinagrete e bebendo a tradicional “saideira”.

Numa festa Babau me apresentou a Luiz Antônio Mello e fui trabalhar como locutora na Maldita. Foram deliciosos anos naquele pequeno estúdio do Grupo Fluminense de Comunicação tocando rock’n roll puro, enquanto lá fora, prostitutas e bêbados dividiam a frente da Rodoviária.Minha vida em Niterói foi muito sossegada até mais ou menos meados dos anos 90. Passeava com minha filhinha pela praia de Charitas na plenitude de uma jovem mãe empurrando o carrinho de seu bebê. O Preventório já existia sim, mas era uma bucólica comunidade que se harmonizava com a paisagem daquele lugar, junto com a linda Jurujuba mais à frente.

Depois que me mudei para Santa Rosa comecei a ver a especulação imobiliária se instalar e instalar o caos. O Rio de Janeiro veio vindo, principalmente Tijuca, Vila Isabel e entorno, em busca de uma vida com mais qualidade. A bandidagem veio junto. O trânsito aumentou na proporção inversa ao tamanho das ruas. As praias foram invadidas por turistas da Baixada. O IPTU disparou. A Região Oceânica se urbanizou da forma mais caótica que se poderia imaginar.

Hoje a cidade permanece salpicada de paisagens encantadoras. Mas sua ocupação urbana ofende o bom senso. Favelas surgem a cada dia e vão aumentando sob a vista grossa do poder público. No asfalto prédios se amontoam em espaços exíguos, enquanto as redes de esgoto não dão conta da demanda, bastando cinco minutos de chuva para que as ruas formem um mar de lama e lixo.
Não obstante haver um túnel ligando Charitas à Região Oceânica, a vida não melhorou quase nada para os moradores lá de cima. Pelo contrário, a famigerada Transoceânica faz vítimas todos os dias com seu imenso e desordenado canteiro de obras.

Niterói hoje já não é mais a menina dos olhos de tanta gente. Mas resiste, graças à sua beleza única, e recebe jovens amantes de Itacoatiara e do Gragoatá com o mesmo coração aberto há mais de quatro séculos.

Parabéns, Nikiti! Que as novas gerações saibam cuidar de você como nós, um dia, soubemos. Porque estar do lado de cá da “poça” ainda é, e espero que sempre seja, muito melhor!

 

Cristina Lebre é autora dos livros Olhos de Lince e Marca d’Água – à venda na Livraria Schöfer, em Icaraí, ou diretamente por lebre.cristina@gmail.com

 

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