Panorama | Cadeia velha

CADEIA VELHA

Antigamente, muito antigamente, aliás, se ensinava aos filhos que o certo era estudar muito (quando dava), trabalhar e ser honesto. Hoje, há uma forte tendência de ensinar-lhes a se dar bem, com ou sem política, e até roubar, dependendo da situação. Não raro ver organizações constituídas por membros de uma mesma família, muitas vezes pai e filhos, como, tudo indica, está acontecendo com o presidente da Alerj, Jorge Picciani e, até agora, Felipe – um de seus filhos – levados pra depor na PF, esta semana, já que são alvos da Operação Cadeia Velha, desdobramento da Lava Jato no Rio. Existem várias acusações contra eles e, apesar de o ‘papai-chefe’ dizer que ele “em toda sua carreira jamais recebeu qualquer vantagem em troca de favores e que seu filho é um zootecnista, bom pai, bom filho, bom amigo, que trabalha de sol a sol e não tem atuação política” (faltou dizer que são honestos), a Justiça viu fortes indícios de mão na botija, no caso, dinheiro público desviado e enfiado em atividades profissionais, políticas e/ou empresariais. E, claro, destinado às conquistas pessoais da famiglia, comprovando que permanece unida a família que rouba unida. Vamos torcer para que tio Gilmar Mendes não interfira desta vez e que haja Justiça para eles com a prisão – caso condenados – os mantendo bem juntinhos por um bom tempo.

AOS AMIGOS, TUDO

Quem não tem uma pendenga, uma espera de alguma decisão judicial, por menor que seja? Nem precisa ser algo mais grave ou complicado, relacionado a crimes, delitos ou até brigas de condomínio, problemas no trânsito, pensão alimentícia, etc. Um simples processo de aposentadoria ou até um pedido de redução de carga horária baseada em lei municipal ainda vigente, a verdade é que a demora muitas vezes causa problemas pela falta de interesse e celeridade da Justiça e de outros setores ligados ao serviço público (às vezes o benefício demora tanto que acontece até a morte de alguém) além de diversos tipos de prejuízo causados a parte, geralmente, mais fraca de uma disputa, interpretação, avaliação, concessão, julgamento, etc. e outros meios que integram uma contenda. Mas tudo isto, na maioria das vezes, ocorre porque vivemos num país onde aos amigos a lei e aos inimigos o rigor da lei.

NEGÓCIO EM CAIXA

A Caixa Econômica tem ligado para alguns de seus mutuários oferecendo-lhes aquilo que chamam de “uma boa proposta”, ou seja, a quitação de pelo menos parte do saldo devedor do financiamento imobiliário através do FGTS. Muita gente não sabe que a conta vinculada também pode amortizar o saldo devedor ou liquidar a dívida, o que para muitos especialistas é uma boa opção pois enquanto o Fundo rende cerca de 3% ao ano, os juros ficam em torno de 10%, percentual ainda bem elevado em relação a muitos países que têm este sistema. De qualquer maneira, é bom os clientes analisarem tudo muito bem, uma vez que o FGTS cumpre o papel de uma reserva no caso de perda de emprego e, como o brasileiro não tem o hábito de fazê-la… Já que estamos em tempos de crise e o caixa da Caixa, consequentemente, do governo, não tá lá essas coisas, uma forma de atrair mais o interesse dos mutuários poderia ser um bom desconto para quem quitasse o imóvel. Que tal uns 20%? Com certeza, ia ter um bocado de gente indo até o banco bem cedinho para raspar o fundo do tacho, ficar livre das prestações e realizar o sonho da casa própria.

MAIS EDUCAÇÃO

Já que estamos em tempos de comemoração pela Proclamação da República (15) e aniversário de Niterói (22), bem que o prefeito Rodrigo Neves podia proclamar, como parte dos festejos, a independência dos moradores da Vila Pereira Carneiro e adjacências que, há muito – justiça seja feita – têm convivido com ruas transformadas em grandes estacionamentos a céu aberto com carros parados em todos os lados impedindo uma circulação mais apropriada de moradores e até motoristas que por elas passam. Basta andar pelo bairro pra ver que tem muita coisa errada. A circulação de ônibus da linha 31, por exemplo, faz com que o bom senso prevaleça e alguém tenha que ceder, subindo em calçadas ou pedindo a Deus que interceda e nada de pior aconteça. Mas a pergunta é: até quando serão só prejuízos financeiros e estresse, já que a cada dia mais e mais espaços são ocupados, ilegal e desordenadamente, naquele lugar antes bucólico como foi a Ponta D’Areia um dia?

MAMMA MIA

Vivo fosse, ‘vovô Eugenio’ estaria com os olhos esbugalhados, num canto da casa, chorando pela eliminação da seleção italiana da Copa do Mundo da Rússia, ano que vem. Tal qual em 1970, no final contra o Brasil, onde ganhamos a partida por 4 x 1 e a copa do México- cena que me lembro de ter visto como uma criança que ainda não entendia muito bem as coisas do coração – e da qual nunca me esqueci. Uma pena para todos, independente de serem ou não italianos, pois a squadra azzurra, tal qual a nossa, a “canarinho” (primeira a se classificar), tem tradição no esporte bretão e também sempre trazia novas emoções durante as partidas. No entanto, a desclassificação era uma espécie de morte anunciada pois há muito tempo não aparecia alguém como Piola, Riva, Mazzola, Rivera, Tardelli, Rossi, Baresi, Baggio, Pirlo. Só um esforçado Buffon, obrigado a jogar ao lado de uma equipe velha, sem charme e sangue novo cujo resultado foi o insucesso transpaltino no apuramento para a Rússia 2018. Uma pena para vovô, seus descendentes e demais amantes do bom futebol e da Itália nossa.

AMORES DE JEAN

O deputado Jean Willys, aquele que falou que se o mundo fosse acabar iria ‘usar todas as drogas ilícitas e transar com tudo e com todos que lhe conviesse’ (ou algo do gênero) – atitude abominável para quem obteve mais de 100 mil votos para legislar em prol da população homo, hetero, cristã, negra, ou não -, bem que podia renunciar ao mandato, pegar o avião urgente para a Austrália e, quem sabe, arranjar um casamento que, muito provavelmente, seria transmitido, ao vivo, pela Globo. É que aquele país acaba de dizer sim ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e ele, que também faz parte do grupo que prega este tipo de união (61,6% dos australianos votaram pela legalização do casamento gay) poderia levar toda sua experiência para lá uma vez que pelas terras brasilis ele já conseguiu emplacar a prática. A qual não temos nada com isto. Só que não.

SEM FRESCURA

Pra quem disse que voltei ‘americanizado’ (do norte), só porque passei uns dias fora, isto é impossível. Primeiro porque não tenho mais idade pra este tipo de empolgação e deslumbramento pueris. Depois por já ter vivido um tempo entre os ianques e constatar que eles também têm problemas e, finalmente, por ser nacionalista demais para deixar que alguém sequer pense em se dizer melhor que nós. Entretanto, toda vez que saio do país, principalmente, para os EUA, elogio sua educação no trânsito, os sistemas trabalhista (lá não tem nenhuma CLT, tampouco reforminhas absurdas e demagógicas), de educação e saúde, o respeito às leis e, evidente, a falta de uma corrupção descarada como a que temos aqui, dentro e fora de uma política protegida por imunidades, impunidades e privilégios. Só.

DEFORMA TRABALHISTA

Mesmo com algumas medidas provisórias enviadas à Câmara, alterando pontos da reforma trabalhista, em vigor desde o dia 11, muitas são as dúvidas da população se ela vai melhorar ou não sua vida. Particularmente, fico mais com a segunda hipótese, não pelo simples fato de ser contra tudo que vem sendo feito pelos últimos governos – corruptos, incapazes, perdulários e impopulares – e, sim, por não acreditar em nada que, diametralmente oposto, possa dar certo. Como é a relação entre o patrão que quer que o empregado trabalhe mais e ganhe menos e o empregado que quer trabalhar menos e ganhar mais. E como há sempre uma tendência de se pensar, primeiro, no tubarão, no mar e no rochedo, o marisco e o bagrinho – no caso, o trabalhador brasileiro – vão continuar sendo prejudicados. E morrendo na praia.

 

FAZENDO ÁGUA

Finalmente, alguns ratos do PSDB, que queriam continuar roendo o queijo e a corda até quando desse, começaram a pular do navio. Depois de muita discussão interna, o ministro das Cidades, Bruno Araújo, entregou a carta de demissão ao presidente Frankeinstemer. Embora isto seja muito comum no meio político, a luz amarela- pra lá de avermelhada – está mais do que acesa dentro do governo que precisa de um mínimo de 308 votos de deputados para aprovar, por exemplo, a reforma da Previdência que, agora, com a revolta e motim de alguns membros importantes do PSDB, fica muito difícil. Pra não dizer impossível.

  • João Direnna é jornalista e psicólogo. E responsável pelo blog do direnna

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