Panorama | Somos um País sério?

 

PARADOXO
Responda com toda sinceridade: Somos um País sério? Pra quem acha que sim, lançamos as seguintes questões:
Num país sério, um deputado flagrado recebendo mala de dinheiro permanece solto?
Num país sério, um senador flagrado combinando propina e falando até em assassinato permanece em liberdade e tem todas as prerrogativas asseguradas?
Num país sério, um presidente é pego em evidente prevaricação e permanece no cargo?
Numa país sério, um ex-presidente envolvido em tantos crimes continua fazendo campanha vermelha e zombando da Justiça?
Num país sério, partido e políticos se dispõem a defender gente assim?
Num país sério, um médico especialista em reprodução humana estupra dezenas de mulheres em fica ‘preso’ em casa?
Desculpem aqueles que acham que não se pode julgar um país e a seu povo pelo que meia dúzia faz. Mas o problema é este. Não é mais meia dúzia que mente, rouba, desvia, mata e comete outros crimes desta natureza. São milhares, talvez milhões de pessoas, direta e indiretamente, querendo levar vantagem e se lixando pra saúde, pra educação, pros aposentados, se temos ou não inflação e desemprego. Se a segurança pública nos garante o direito de ir e vir. Daí, eu te pergunto: somos um País sério?

ESGOTO NACIONAL
Nada pode reforçar mais a tese de que o Congresso Nacional é, mesmo, um antro, um covil, um grande circo e, supostamente, um rendez-vous (isto porque ainda não se transmitiu cenas mais picantes lá dentro). Uma Casa onde, ao invés de passar uma imagem de seriedade, de criação de leis favoráveis à população, de fiscalização permanente do Executivo, as negociatas, o corporativismo, o toma lá dá cá, a compra de parlamentares e tudo mais que represente a sordidez de uma instituição e o comprometimento deles com o esgoto e os meandros para se manter o poder e ganhar dinheiro, estão presentes no dia a dia daquele lugar. E os melhores exemplos de que isto é uma triste realidade que precisa ser expurgada, se possível, extinta (entendam como quiserem), o mais rápido, foram o arquivamento da segunda denúncia contra Temer e a volta de Aécio Neves ao Senado. A primeira se deu pela explícita distribuição de dinheiro aos parlamentares ( emendas, cash, etc) e, a segunda, pela mesma razão, acrescida pelo fato de 28 dos 44 senadores que votaram a favor do tucano responderem a inquéritos ou ações penais no STF.

VITÓRIA DA IMPUNIDADE
A sessão do Senado, na tarde-noite de terça-feira (17), ficará marcada nos anais como o “Dia da Vitória da Corrupção e da Impunidade”. Isto porque 44 dos cúmplices, apaniguados, parceiros, seguidores (abaixo a lista completa)- ou qualquer outro nome que se possa dar a traidores da Pátria e sórdidos corporativistas – de Aécio Neves votaram pela revogação das medidas cautelares impostas pelo STF (pelo menos a parte mais sensível aos apelos populares e à obviedade de que ele cometeu crimes), devolvendo o mandato ao senador mineiro que, agora, além do retorno à Casa e às suas prerrogativas, dentre elas continuar fazendo o quiser com proteção ainda maior, terá de volta as outras coisas boas da vida como desfrutar as delícias do Rio. O espetáculo todo, até onde consegui apreender (e engolir) girou como num picadeiro e numa espécie de câmara dos horrores, onde, só pra variar, os artistas eram políticos inflamados, a favor e contra a decisão do Supremo, fazendo discursos muitos deles meio sem jeito, engraçados e alguns até paradoxais cujo resultado foi, mais uma vez, tripudiar e jogar a maior parte da população para arder, sem dó nem piedade, já que continuará a contar com o rigor da lei que, como se viu e como se vê o tempo todo, atingirá, principalmente, pretos, pobres e sem influência, deixando de fora quem tem mais poder. Mesmo, por exemplo, quem tenha brincado de mandar matar, pedido dinheiro a envolvidos na Lava Jato, mentido ao dizer que não fez fortuna na vida pública, chantageado ou corrompido alguém. Aliás, como, de acordo com o STF e as muitas e claras evidências, costumam fazer senadores da República.

ELEIÇÕES 2018
Ano que vem, daqui a menos de um ano, teremos eleições para presidente, governador, deputados (estaduais e federais) e duas vagas de senador. Uma boa oportunidade para mostrarmos satisfação ou repúdio com o que aí está. Embora não preguemos o voto branco, nulo ou abstenção, respeitamos a vontade absoluta do eleitor que não aguenta mais a mesmice, escutar uma coisa e ver outra se realizando completamente às avessas, tanta roubalheira e impunidade e prefere não votar em nenhum deles. Mas, como em tudo na vida, não se pode generalizar, pois o que os maus políticos querem (além das maracutaias) é que esta cultura do ‘deixa pra lá, não vai adiantar mesmo’ e eles – que já são maioria – comprarem, cooptarem, encabrestarem votos e pessoas e continuarem com seus mandatos. Portanto, 2018 pode, quem sabe, revelar surpresas agradáveis e, quem sabe, apresentar candidatos bons, honestos, capazes de, eleitos, cumprir promessas de campanha e fazer aquilo que prometeram e são pagos pra fazer. Quem sabe?

MAIA X TEMER
Tem gente que ainda acredita numa briga pra valer entre os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia e da República, Michel Temer. É claro e cristalino que estão em jogo muitas coisas. Interesses partidários, poder, as próximas eleições e, mais claro ainda, o dinheiro (aliás, em termos de Brasil atual, o mais corrupto dos corruptos, muito dinheiro). Os fatos, já rotineiros, não deverão afetar os ânimos dos personagens envolvidos, pois são, todos, da mesma estirpe e frequentam o mesmo valhacouto. Ah, não nos esqueçamos, também estão todos envolvidos até o talo. O cenário político, apesar de conturbado, não sofrerá alterações significativas (isto se não surgirem fatos novos, como a volta dos movimentos populares), uma vez que os dois fumarão o cachimbo da paz e a população, não só será afetada mais do que está, continuará pagando a conta pelos desmandos e irresponsabilidades dessa bagunça e levando, como sempre, mais fumo.

Frase da Semana: Deus disse: “Dai com a mão direita que a esquerda não veja”. Será que era uma referência aos políticos brasileiros que veem até com os pés?

  • João Direnna é jornalista e psicólogo. E autor do blog do Direnna
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