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Letras | Cristina Lebre | Edição 175

Depressão é doença de rico?

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Não é. Foi-se o tempo em que terapia, para os menos abastados, era “um tanque cheio de roupa para lavar”. O mundo inteiro já sabe que a população, como um todo, sofre os mesmos problemas emocionais, até porque somos humanos e, no que se refere aos sentimentos, a divisão em classes sociais não muda muita coisa.

É claro que quanto menor a renda maior a insegurança, mas as impressões trazidas da infância e adolescência permanecem e, muitas vezes, precisam ser reprocessadas, assim como os transtornos de ansiedade e estresses pós-traumáticos.

Recentemente o jornalista Ricardo Boechat veio a público compartilhar seu momento doloroso de depressão, e exortar as pessoas a perderem o preconceito e tratarem a anomalia como uma doença, não como um “fricote” de gente que não tem o que fazer. A reação popular foi impressionante: centenas de pessoas de todo o país, e do exterior, declararam sua identificação com o processo pelo qual o âncora vem passando, pessoas essas de todas as faixas de renda. Valeu, Boechat, mais um ponto pra você, precisamos exorcizar este fantasma.

Minha terapeuta outro dia gastou um tempo de nossa sessão, por insistência minha, é claro, discorrendo sobre a experiência de uma equipe de psicólogos que atenderam as comunidades do Morro do Bumba e de Nova Friburgo, ambas assoladas por enchentes que destruíram suas vidas, em 2010 e 2011 respectivamente. Ela fez parte do grupo que fechou seus consultórios durante dois meses exclusivamente para ajudar essas populações a se recuperarem do estresse pós-traumático a que foram submetidas, e reunirem condições para recomeçar, do nada. Gente que perdeu parentes, famílias inteiras. Gente que não conseguiu salvar nem os documentos. Gente que ficou com a roupa do corpo. Gente jovem, idosos, crianças. Gente que perdeu, literalmente, tudo.

A técnica utilizada é a chamada EMDR (Eyes Movement Depression Reprocessing), desenvolvida pela médica Francine Shapiro, no final da década de 1980, na Califórnia. Através da estimulação bilateral dos hemisférios cerebrais, o paciente é levado a reprocessar sua experiência traumática. Os estímulos podem ser visuais, táteis ou auditivos e cooperam para que o paciente reelabore o acontecimento, observando métodos e aprendendo a controlar suas reações.

Os resultados da aplicação da EMDR nos moradores do Morro do Bumba, e dos atingidos pelas enchentes de Nova Friburgo em 2011, foram surpreendentes. Não que as pessoas tenham saído pulando de alegria, claro, mas recuperaram grande parte de sua força, coragem e autoestima para arregaçarem as mangas e retomarem seus caminhos.

Conversei também com uma profissional que atua como voluntária em uma igreja do Ingá, atendendo moradores do morro do Palácio. Ela me contou que, embora eles convivam com perigos iminentes e instabilidade financeira maior, possuem demandas idênticas a de qualquer mortal: perda de parentes, separações, divórcios, problemas de relacionamento familiar, alcoolismo ou outras adições químicas, problemas sexuais. Ou seja, transtornos, medos, depressão, fobias e ansiedade são comuns a todos e, em sua maioria, a tônica dos tratamentos.

É preciso encarar as doenças psicossomáticas como enfermidades advindas de experiências desagradáveis ao indivíduo, e tratá-las como as demais alterações negativas à saúde. Chega de fazer “vista grossa”, ou colocar “panos quentes” em cima de questões graves da mente. O cérebro processa os acontecimentos da vida de um ser humano de diversas formas, e muitas vezes essa elaboração não é adequadamente sistematizada, gerando sintomas físicos decorrentes de traumas e estresse. Pontão para esses psicólogos que trabalharam com as comunidades vitimadas por tragédias naturais. Mega louvável a iniciativa de universidades e entidades filantrópicas no sentido de ajudar voluntariamente os que não possuem recursos para tratar suas emoções.

Em meio à crise política e econômica pela qual passamos, é uma utopia cobrar dos governos a aplicação de recursos em terapias para as perturbações emotivas deste país. Enquanto esperarmos do andar de cima providências para tudo, boa parte do que pode ser resolvido por nós mesmos fica sem solução. Por isso devemos nos mobilizar para auxiliar os menos afortunados. Porque os distúrbios da psique não são prerrogativa dos que moram “no asfalto”. Eles atingem a todos, indiscriminadamente, e todos têm direito a serem tratados. Afinal, depressão e outras desordens emocionais são, diríamos, democráticas, não escolhem sexo, idade, cor ou classe social.


 
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